
Lecionar, eu?
Fábio Shin esteve convalescente, então não tive escolha... dias 2 e 3 eu seria seu substituto no
Okinawa Gakuen, Vila Carrão!
Acontece que eu não sou nem de longe a pessoa indicada para ensinar algo a quem quer que seja. Sim, é uma crença limitante... "não há nada que outra pessoa de mesma estrutura e capacidades mentais possa fazer que eu não possa se insistir o suficiente", mas que me borrei nas calças... ah, isso sim!
Por sorte (e algumas insinuações desesperadas), Fábio Shin percebeu minha insegurança e não deixou que eu tomasse a frente sozinho... ufa! Seríamos Bernô (perdendo sua preciosa folga), Cláudia (deixando o aconchego de seu lar em Mauá) e eu (tentando reencontrar a droga da confiança), comandando uma sala lotada de alunos novos, crianças de todas as idades, sedentas por conhecimento!!!
... encontramos uma turma de oito alunos corajosos, que enfrentariam frio e chuva para estar ali, desenhando por cerca de seis horas. O que eu achei maravilhoso, principalmente por já conhecer uns três quartos da turma.

A verdade é que, no fundo, admiro muito os professores e mestres de todas as áreas. Tenho inveja de sua capacidade em inovar, criar e entreter por horas seguidas. A forma como podem causar impressões profundas e permanentes em outras vidas e, justamente por isso, ainda tenho receio de assumir essa responsabilidade.
Levando menos a sério, qualquer idiota pode imaginar o que senti quando um ou outro passaram a me chamar: " Professor!" Hahaha, quanta gentileza, mas eu não podia mentir para aqueles rostinhos pueris.
Não era a hora de quebrar os protocolos e todo um método de estudo para ensinar meus vícios e práticas tortuosas na construção de um desenho. Meus colegas estavam lá para me supervisionar... pelo menos até a manhã do dia seguinte...
Um estranho no ninho
7:20am - Caí da cama, direto para o banho. Só acordei mesmo depois do café...
8:00am - Saí de casa ainda a tempo de cumprimentar todos os cães da rua que segue até o metrô. Uma manhã fria e solitária mas eu estava bem mais confiante que no dia anterior.
9:00am - Finalmente decorei o trajeto após 3 vezes indo até lá. Senti todo o peso da responsabilidade de, sendo um
burajirujin, portar as chaves do
kaikan...
9:30am - Após lutar com fechaduras e a caixa de luz, era hora de começar. Ainda sozinho, mas os alunos já começavam a chegar.
Eu tinha edições da
Jump, Nakayoshi, KoroKoro, Vagabond e um bloco de papel vegetal sobre a mesa... Pensei num exercício prático que uso há anos para modificar uma coisinha ou outra na estrutura corporal dos personagens.
Minha primeira vítima foi o Rafael, depois Fernando e os gêmeos, Leonardo e Gabriel. Basicamente eles teriam que desconstruir os personagens das revistas usando o papel vegetal e criando de forma inversa o esquema sobre o desenho pronto.
- Pra que isso, professor?
- Calma que eu sei o que estou fazendo, molecada! (hohoho... será?)11:30am - Até aqui a aula foi quase que toda minha! Pobres crianças... Será que realmente aprenderam alguma coisa comigo? O importante é que a Cláudia estava lá para dar continuidade!
Hora de comer!
12:00pm - Sexta é dia de feira! Preciso me lembrar que as coisas não são muito baratas em certas padarias da Vila Carrão... Levamos, como diria o Bernô, algumas "gulodices" para tapear o estômago até às 17h.
14:00pm - De volta à ação! A turma quase completa, agora com Letícia, Fernando, Rúbia e Akemi. Cláudia começou as lições com lápis de cor mas, para minha surpresa, os alunos ainda me consultavam! Quase fui às lágrimas!
17:00pm - Fim das aulas. Deixei meu coração com aquelas crianças... oh, que dilema!: Devo voltar à vida de clausura ou me atirar num caminho de... ah que melaço, já chega...
18:00pm - Peguei uma van a 200km/h!
Ainda subindo, a porta se fechou atrás de mim, já em movimento. Paguei em dinheiro e o cobrador pediu para aguardar o troco. Só que estava em um lugar pouco acessível para o motorista que teve de RETIRAR O CINTO para apanhar as poucas moedinhas!!!
Depois descobri que esses pirados têm um cronômetro pendurado e podem até matar os passageiros só para bater cartão no terminal!
Na subida da rua, os sinos da velha igreja da Penha começavam a soar. Estava em casa, pronto para
começar o expediente!
E minha experiência como professor postiço até aqui já está registrada.
Nota: A escola de mangá tem professores capacitados que lidam com isso há muito tempo. Minha primeira experiência foi um caso isolado de emergência sem prévio aviso.